Waldenor Pereira
Waldenor Pereira Deputado Federal
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19/8/2011 - Crônica de uma batalha chilena

Por: João Carlos Ribeiro Jr.

Na praça da periferia de Santiago, no bairro Los Quillayes, vários grupos conversam entre si, cambiando pessoas e ansiedades. Um casal troca cachecóis. Ajeitam-se, sorriem. Ficam um pouco mais elegantes, mas não estão pensando nisso. Além de se esquivar do frio típico de agosto, pensam em proteger o rosto dos gases tóxicos que a polícia costuma lançar. Sentem medo de serem presos, de ficarem separados.
 
 
As ruas da cidade são repletas de cachorros. Grandes, mansos, simpáticos. Parecem gostar da agitação e do barulho do único tambor que dita o ritmo das palavras de ordem. ¡Y va a caer... Y va a caer... La educación de Pinochet! Y va a caer! Os cachorros correm ao lado da massa estudantil, vão e voltam. Chega um carro da polícia. ¡Paco, farsante! Tu hijo es estudiante! Os policiais ficam na viatura, é a primeira vez que se vê um rosnado.
 
 
– Queremos discutir a educação seriamente, acabar com o lucro. Por isso acho que nossas reivindicações não são apenas estudantis, vão muito além. Nossos pais, professores, vizinhos sabem que se triunfarmos os prejudicados serão a minoria que ganha muita grana em cima de nós. Mas o governo não entende que o povo pode ir à rua. Até agora, a única resposta efetiva que deu foi a violência policial.
 
 
A avenida Concha y Toro é muito larga e estica-se até os olhos espremerem-se para ver onde termina. Isso não desanima a caminhada, pelo contrário. Das seis faixas, três estão tomadas. Dos carros que precisam desviar, alguns soltam impropérios. Muitos buzinam em sinal de apoio. O entusiasmo avança.
  
 
As músicas não param. Há um garoto magricelo à frente que puxa um novo grito quando as vozes altas escasseiam. ¡Chi! Chi! Chi! Le! Le! Le! Estudiantes de Chile! O levante da alegria, de novo. Um senhor fumante, barbas brancas vistosas, adere à passeata. Não grita a plenos pulmões. ¡A ver, a ver! Quem lleva la batuta! Los estudiantes! O los hijos de puta! Um sorriso parece um farol.
 
 
Mais duas viaturas, a tensão se intromete. Não querem deixar a marcha seguir, mas os passos são determinados. Motocicletas de carabineros também surgem, tentam formar uma fila para forçar a passeata a ir para calçada. Parece uma barreira de areia, ridiculamente, tentando empurrar o mar.
 
A juventude incita os que saem do metrô a entrar no protesto. Muitos olham atônitos, outros com simpatia. ¡Vamos, compañeros, hay que ponerle um poco más de empeño! Salimos a la calle nuevamente! La educación chilena no se vende, se defiende! Uma mulher saca o celular e verifica as horas. Talvez tenha que completar sua segunda jornada do dia, pode ser que tenha um encontro importante, pode ser que o cansaço seja demasiado. Ela cerra o punho e levanta a mão esquerda. O movimento sabe que cresce. Os estudantes aplaudem e gritam.
 
Agora engrossou a fila silenciosa de carabineros. Atravancam o caminho. Formam uma barreira mais fortificada, viaturas mais alinhadas, bombas e cassetetes prontos. Caminar! Caminar! Por la calle principal! Na calçada, muitas trombadas e preocupação. Alguns aceleram o passo, outros diminuem, mas é na rua que a revolta se realiza. Mar arrebenta.
 
A violência desorganiza a beleza, persegue, ataca. A correria não tem direção. Bomba. A porta do prédio está fechada e mais uma bomba explode ao lado do jovem que procura o irmão mais novo. O temor está disparado, mas ele sente o coração acalmar quando vê o caçula num grupo que entra na rua lateral sem placa. Sabe que o moleque é esperto. Sente o incômodo da fumaça e corre.
 
Uma cena patética e bela. Na faixa da garota, que parece não passar dos quinze anos de idade: “Educação gratuita”. Simples, direta, a mensagem é surpreendentemente revolucionária. Um policial avança e agarra a faixa. Corajosa, a menina resiste, disputa a pequena bandeira que ela mesma fez. Enfrenta a insensata força física e a intolerância do Estado. Perdeu a faixa; fará outra.
  
Estudantes são presos e as pessoas se espalham. O comércio fechou as portas. Mas a caminhada continua, mesmo espalhada. Reunião dispersa. Um grupo de garotos e garotas no ponto de ônibus, visivelmente abatidos. Um outro chega e diz para continuarem, seguirem. No apartamento do primeiro andar, de frente, a janela pra rua é aberta. Uma moça começa a bater uma imensa colher numa panela. Mais janelas se abrem.
  
– É claro que tenho medo às vezes. Mas sabe uma coisa que me dá vitalidade? É pensar que estamos conectados com os eventos mais significativos de agora. Veja o que acontece no Egito, Tunísia. Veja os espanhóis indo pra praça, como nós. Eu acho mesmo que aqui há também uma primavera. Desafiamos até o inverno!
 
E cai na gargalhada. Agora buscam a Plaza Puente Alto. A praça é o encontro, o abrigo da revolta, e está logo ali, iluminada. 

Não se sabe se satisfeitos com as prisões ou se constrangidos com o barulho do cacerolazo, das buzinas, mas o fato é que a maioria dos policiais vai embora. Os que sobram vão para uma ponta da praça. Observam e ficam em silêncio. Pensam em seus filhos? Vengan! Vengan a ver! Este no es un gobierno! Son puras leyes de Pinochet!
 
Algumas pessoas falam, discursam, avaliam o ato e convocam todos para o próximo. Haverá uma passeata no centro, expectativa grande. Alguns saíram em busca da libertação dos que foram levados. Sabem que precisam ser rápidos para que eles não sejam muito castigados. A alegria topou o confronto. Nesta mesma noite, manifestações parecidas ocorreram em muitas partes de Santiago. Em todas, muitos lenços palestinos são vistos.
 
– Veja bem, muitos tratam isso aqui como rebeldia estudantil, não é disso que se trata. A rebeldia é um direito de todos, e está se espalhando, é a forma mais bonita de autonomia, é pura criação.
 
O casal tira os cachecóis. Estão com calor porque correram um pouco. Despedem-se de três amigos e descem as escadas para entrar no metrô, de mãos dadas. Os que ficam continuam conversando.
 
– Você se sente numa batalha?
 
– Claro que sim!
 
– Uma batalha de ideias.
 
– Essa eu acho que já ganhamos. Querem comer algo?

*João Carlos Ribeiro Jr. é formado em Ciências Sociais pela USP e editor. Esteve no Chile recentemente.

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